terça-feira, 30 de novembro de 2010

sobrevivendo fora do núcleo de uma célula


É um pouco idiota ou fatalista descrever alguma coisa como fase. Como se houvesse um momento delimitado onde tudo começa e onde tudo termina. Há sempre um pouco de tudo antes do começo e depois do final. Mas, estava recordando sobre as paixões. Aquelas que acontecem, aquelas que ensaiam e aquelas que não embarcam ou esperam um navio ou uma bóia para zarpar. Quando de repente os olhos de alguém te fazem perceber originalmente tudo de novo. Mais influente do que a fé, pois é uma fé acontecida ao vivo, do que qualquer coisa que te faça muito sentido. É um momento de consagração, de vento soprando, de sorte, de beleza. E é quando olhamos para a Lua. Será que todas as paixões tem esta parte? Da “nossa Lua”? Da Lua dos Mutantes, do Chico ou daquela música que você nunca tinha ouvido. E depois chega aquela parte quando os dois vão deixando pra lá o apreço pelo olhar admirado do outro ao te ver falando – contando algumas histórias, falando de um jeito único, descobrindo as tuas dores e as tuas doçuras, enxergando possibilidades de algo não-sei-o-quê, não-sei-como de continuar nessa troca de possibilidades (quase certezas) de felicidade eterna – e passar a compartilhar de fragmentos miudinhos quase pistas daquilo que está girando e girando e tomando proporções exageradamente boas. E mostramos com cuidado a pontinha do iceberg para não assustar, confidentes, daquilo tudo. E então a outra pessoa aproveita para complementar a tua tímida e corajosa anunciação do vendaval com outra pista do vendaval dentro dela. De que você não está sozinho e que se pudessem explodiriam em palavras e promessas e eu-te-amos, todos insuficientes. Mas não falam. Pois ainda é muito cedo e até agora tudo o que se sabe de amor é que ele cresce aos poucos e além do mais, seria muito escancarado para essa sutileza repleta de esperanças que é “estar prestes”. E seria muita idiotice acabar com tudo isso presumindo um amor logo de cara, delimitando um começo de algo que já começou, que sempre esteve em tudo. E seria uma fatalidade presumir que isto também termina. Pois sempre existirá alguma coisa, um pouco de tudo no antes e no depois também. Somos substâncias do meio, substâncias de ligação. Matéria entre as matérias. Citoplasma.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

[ ]


"Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo".

"Qualquer coisa assim:" [ ]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Parece que você não me aconteceu.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

verão


eu: aqui está demaaaaaaais esse calor!

uix

ele: suando suando suando

banho banho banho

por mim, eu estaria naquela varanda de casa na praia

depois do almoço

deitado num colchão

com vento batendo

eu: coisa boa

ele: barulho da água da piscina

que nem vou entrar agora, mas sei que esta ali para um mergulho repentino

eu: umas folhas secas boiando nela

ele: aquele meio sono

meio acordado

um som ligado meio baixo

eu: algo um pouco antigo que te faça lembrar alguma época

ele: música calma

eu: aquele piso gelado nos pés descalços

ele: a pele meio molhada meio seca

isso, piso gelado

eu: biquíni, meio queimada

um livrinho meio lido meio não

uma conversa mole

ele: a cozinha já limpa depois do almoço

e um início do cheiro da nega maluca assando no forno

e a ciência de que ainda são muitos dias de folga pela frente

eu: perfeito!

início do cheiro da nega + muitos dias de folga + ventinho na pele um pouco seca, um pouco molhada + uma música leve

ele: deitado de barriga pra baixo num colchão confortável

e sabendo que a praia está uma delícia

então daqui a umas duas horas, quando a moleza passar

você vai pegar uns jacarés

e secar deitado numa canga

mais vento na pele molhada

e a possibilidade de ir ali jogar um bets

eu: e você toma um banho, e sente o cheiro de sabonete (que fica mais evidente no verão) esfrega no seu corpo e sente umas areínhas, sai do banho com a pele ressecada, veste algo leve, se arruma um pouco, põe um chinelo que ainda esta molhado, e vai na varanda

sente quase um frio e pensa no que fazer com os amigos nessa noite

ele: e vê que dá uma preguiça. melhor coisa vai ser sentar ali fora na mesa, tomar cerveja, jogar dominó e truco

eu: vai na geladeira, pega a cerveja, o copo de requeijão, e senta naquela mesa pra seis, na varanda.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

leminski


"Posto que és carne
e porque hoje é sábado
serás sempre carne
carne moída
carne de primeira
carne de pescoço
carne de mim."


Exposição:

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

me diz, cadê você aí?


"Te parece dócil, assim sinuoso, evitando toques que possam machucá-lo?"



Ilustração Manu.
Texto do Caio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

o novo


Às vezes é preciso misturar um pouco de vida na vida acostumada que se está levando, uma espécie de faxina, ou injeção de oxigênio naqueles aquários monótonos verdes e cansados. Quando estou naquele momento pouco depois de quase ser mimada novamente e penso que não iria adiantar nada que a gente não pode mais buscar um conforto expresso assim fácil e mentiroso, então eu respiro e sinto. Num ato de coragem sinto o cheiro da hora como uma anunciação da qual tenho medo. Um cheiro frio e chuvoso empoeirado de veludo falso gasto de hálito cansado de regresso sem medalha. Eu procuro algo boêmio em mim – como Modigliani e Picasso que transformavam os seus desprazeres em pura poesia em seus encontros pelos bares. Mesmo não fumando eu sento de pernas cruzadas com as costas arqueadas o corpo projetado para frente em uma cadeira de palha apoio os cotovelos no joelho e nesta pose um pouco torcida eu balanço a perna cruzada, devolvo no ar aquela respiração cheia de ácaros do veludo velho e mentiroso e aí seria bom ter um cigarro, para que pudesse ver no ar o movimento de expulsão e dissolução. Como se fossem os meus cansaços projetados para fora de mim assisto a sua dispersão no mundo. Seria bom também ter uma dose de qualquer bebida destilada e forte daquelas que se tomam num trago tentando conter a sua ardência e seu amargo, alterando minimamente o semblante sentindo queimar as bochechas e as paredes viciadas de ares pesados e anunciações temerosas. E assim nessa sequência de expulsão e ardência, sente-se uma leve confusão, pois agora há de se organizar tudo novamente. O resto do dia ou do mês sem esta substância verde e mofada de veludo repleto de ontens, e deixar entrar o novo.