
É um pouco idiota ou fatalista descrever alguma coisa como fase. Como se houvesse um momento delimitado onde tudo começa e onde tudo termina. Há sempre um pouco de tudo antes do começo e depois do final. Mas, estava recordando sobre as paixões. Aquelas que acontecem, aquelas que ensaiam e aquelas que não embarcam ou esperam um navio ou uma bóia para zarpar. Quando de repente os olhos de alguém te fazem perceber originalmente tudo de novo. Mais influente do que a fé, pois é uma fé acontecida ao vivo, do que qualquer coisa que te faça muito sentido. É um momento de consagração, de vento soprando, de sorte, de beleza. E é quando olhamos para a Lua. Será que todas as paixões tem esta parte? Da “nossa Lua”? Da Lua dos Mutantes, do Chico ou daquela música que você nunca tinha ouvido. E depois chega aquela parte quando os dois vão deixando pra lá o apreço pelo olhar admirado do outro ao te ver falando – contando algumas histórias, falando de um jeito único, descobrindo as tuas dores e as tuas doçuras, enxergando possibilidades de algo não-sei-o-quê, não-sei-como de continuar nessa troca de possibilidades (quase certezas) de felicidade eterna – e passar a compartilhar de fragmentos miudinhos quase pistas daquilo que está girando e girando e tomando proporções exageradamente boas. E mostramos com cuidado a pontinha do iceberg para não assustar, confidentes, daquilo tudo. E então a outra pessoa aproveita para complementar a tua tímida e corajosa anunciação do vendaval com outra pista do vendaval dentro dela. De que você não está sozinho e que se pudessem explodiriam em palavras e promessas e eu-te-amos, todos insuficientes. Mas não falam. Pois ainda é muito cedo e até agora tudo o que se sabe de amor é que ele cresce aos poucos e além do mais, seria muito escancarado para essa sutileza repleta de esperanças que é “estar prestes”. E seria muita idiotice acabar com tudo isso presumindo um amor logo de cara, delimitando um começo de algo que já começou, que sempre esteve em tudo. E seria uma fatalidade presumir que isto também termina. Pois sempre existirá alguma coisa, um pouco de tudo no antes e no depois também. Somos substâncias do meio, substâncias de ligação. Matéria entre as matérias. Citoplasma.






